sexta-feira, 5 de março de 2010

O Anti-Tabagismo Durante o III Reich


Com o começo do ano 2006, entrou em vigor uma lei na Espanha que regula o consumo de fumo em lugares públicos, transportes públicos e centros de trabalho. Com motivo disso, alguns dos detratores desta lei fizeram circular pela rede um texto intitulado "A lei anti-tabaco foi inventada pelos nazistas", com o propósito de desacreditar esta nova lei, porque como o cidadão médio, submetido ao bombardeio dos meios de desinformação, fizeram-lhe acreditar que todos os "nazistas" são intrinsecamente maus por natureza, se mostrar-lhe que medidas similares foram aplicadas durante o III Reich pensará que leis deste tipo são próprias de fascistas que só procuram impedir sua liberdade individual, seu direitos como cidadão do mundo e “blá blá blá”.

De todos os modos pelo que pudemos ler, a lei espanhola é muito pouco restritiva comparada com as leis que, por exemplo, há no estado da Califórnia onde não se permite fumar nos parques públicos nem em lugares públicos fechados, como bares, restaurantes e escritórios. Também não se pode fumar nas praias, nem num apartamento de aluguel se o proprietário não autorizar, e na rua os fumantes podem acender um cigarro só se estiverem, no mínimo, a seis metros de distância de um edifício público.

Podemos pôr também como exemplo um lugar que agradará mais aos políticos de salão, o "paraíso comunista" da Cuba, onde se proíbe fumar em todos os lugares públicos fechados incluindo escritórios, teatros, ônibus, táxis, trens, escolas, zonas de manipulação de alimentos e estádios esportivos.

O fumo segue representando o maior problema da saúde pública de nosso tempo, já que intervém em uma de cada cinco mortes da população geral e na metade das mortes entre 35 e 69 anos. O tema do fumo nunca se tinha levado, na Espanha, com a seriedade que merecem os 55.000 mortos que ocasiona anualmente. Legislava-se para conseguir seu controle, mas se esquecia de desenvolver aspectos tão elementares como os mecanismos necessários para que as leis fossem cumpridas.

Os historiadores e epidemiologistas mal acabam de começar a explorar o movimento anti-fumo desenvolvido na Alemanha durante o governo de Adolf Hitler. A Alemanha teve o mais forte movimento anti-tabaco do mundo na década dos anos 30 e na primeira metade da década dos anos 40, com medidas tais como a proibição de fumar em lugares públicos, proibições de propaganda, restrições para as rações de fumo para as mulheres, e a mais refinada investigação mundial sobre os efeitos do tabaco, contribuindo com provas científicas da já evidente relação entre o fumo e o câncer de pulmão.

Na última década os historiadores médicos contribuíram com estudos que melhoram nosso conhecimento sobre a medicina e a saúde pública na Alemanha do III Reich. Sabemos graças a isso que aproximadamente a metade dos médicos do sistema público de saúde estavam filiados ao NSDAP.

Muitos líderes nacional-socialistas se opunham claramente ao consumo de fumo, como o Doutor Robert Ley, da Frente Alemã do Trabalho, sendo Adolf Hitler um dos mais ferrenhos em sua oposição.

O primeiro caso de um estudo controlado sobre a relação entre câncer de pulmão e tabagismo foi levado a cabo na Alemanha em 1939. Isto foi possível com a volta do Escritório Contra os Riscos do Álcool e do Fumo, estabelecido em 1939, pelo Doutor Leonard Conti, responsável dos Assuntos de Saúde do Reich, na qual tinha precedido no cargo Gerhard Wagner. O Instituto de Investigação dos Riscos do Fumo, estabelecido na Universidade de Jena, desenvolveu um segundo estudo em 1942. Este Instituto foi financiado com 100.000 marcos do Reich provenientes das finanças pessoais de Adolf Hitler.

Além das investigações sobre o tabagismo, também tinha muitas campanhas para promover o hábito saudável de não fumar. As Juventudes Hitlerianas e a Liga das Garotas Alemãs distribuíram abundante propaganda anti-fumo. Em 1942 a Federação das Mulheres Alemãs (BDM) lançou uma campanha contra o consumo de fumo e álcool. A Frente Alemã do Trabalho também desenvolveu muitas campanhas, onde se faziam muito insistentes, com os efeitos prejudiciais do tabaco para a saúde.


Estas campanhas estavam apoiadas também por uma legislação, que proibia fumar tanto alunos como professores em muitas escolas.

Considerava-se como negligência criminosa se os motoristas envolvidos em acidentes estavam fumando. Controlou-se estritamente a publicidade do fumo, e foi criada uma discussão sobre se os pacientes com doenças derivadas do tabagismo deviam receber o mesmo tratamento que os pacientes com doenças não derivadas do consumo de fumo.

A luta contra o tabagismo foi só um dos assuntos de saúde que receberam atenção por parte da Alemanha Nacional socialista. Também foram levadas a cabo campanhas contra o consumo de álcool. Recomendava-se consumir frutas e verduras, pão integral e não abusar das gorduras. Uma marcante figura da medicina do III Reich, Erwin Klein, predisse que no futuro se descobriria que o câncer era um resultado de uma dieta inconveniente. O consumo em excesso de creme era também particularmente desaprovado. O jornal oficial das SS, 'Das Schwarzes Korps', falou numa ocasião sobre os turistas alemães na Áustria que visitavam os cafés, que davam uma imagem "de onde se pode pensar que a Grande Alemanha foi criada só para que seus cidadãos pudessem “se encher” de bolos com creme". Um proeminente slogan pró-militarista rezava: "Poder de combate ou creme?".


Outro fator que se mostrou muito interesse sobre a noção de que um ambiente intra-uterino afetado pela nicotina e pelo álcool teria conseqüências no desenvolvimento dos filhos. Um manual de saúde de 1942 para mulheres grávidas proclamava: "Mães, deveis evitar absolutamente o álcool e a nicotina durante a gravidez e a lactância de vossos filhos. Estes elementos dificultam, danificam e destroem o curso normal da gravidez. Beber suco de frutas".

Apesar das campanhas levadas a cabo, entre 1933 e 1938 o consumo de fumo na Alemanha aumentou, com umas taxas de incremento superiores às da França que desenvolvia campanhas anti-tabaco menos ativas. O consumo per capita de cigarros na Alemanha entre 1932 e 1939 passou de 570 a 900 cigarros por ano, enquanto na França passou 570 a 630 cigarros por ano no mesmo período de tempo.

Igualmente que hoje em dia, há que levar em conta que as companhias tabaqueiras exerciam um grande poder econômico e político, e os ativistas anti-fumo alemães se queixavam freqüentemente de que seus esforços não podiam ser equiparados aos anúncios do "Estilo Americano" que utilizava a indústria do fumo. Os produtores nacionais de fumo neutralizaram toda a crítica mostrando-se como uns dos primeiros e ferventes apoiadores do Nacional socialismo, e não há que esquecer que as S.A (Sturm Abteilung) manufaturavam seus próprios cigarros das marcas Trommler, Alarm, Sturm e Neue Front Cigarettes na fábrica "Sturm Zigaretten".

Assim mesmo, a indústria tabaqueira lançou vários novos jornais e revistas com o propósito de contrariar a propaganda anti-fumo. Com uma estratégia que repetiriam nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial, algumas destas publicações tentavam desacreditar o movimento anti-fumo qualificando-lhes como "fanáticos" e "carentes de todo rigor científico".

Também há que levar em conta que o fumo cria uma importante fonte de renda para o tesouro público. Entre 1937 e 1938, as rendas provenientes dos impostos e tarifas sobre o fumo atingiram um bilhão de marcos do Reich. Em 1941, como resultado da união do Reich com a Áustria e a Boêmia, estas rendas foram incrementadas ao dobro. De acordo com o Escritório Alemão de Orçamentos Públicos, as rendas do fumo foram de 1/12 parte das rendas totais do Estado. Dizia-se que 200.000 de alemães viviam direta ou indiretamente da indústria do fumo, um argumento que foi rapidamente “dando a volta” daqueles que diziam que a Alemanha precisava de trabalhadores em indústrias realmente produtivas para a nação, pessoas que podiam ser recrutadas entre as que trabalhavam na indústria do tabaco.

As políticas anti-fumo na Alemanha se aceleraram no final dos anos 30, e nos primeiros anos da II GM o consumo de fumo já tinha começado a declinar. A Luftwaffe proibiu fumar em suas instalações em 1938, o mesmo que o Serviço Postal. A proibição de fumar se estendeu a muitos centros de trabalho, escritórios do governo, hospitais e casas de repouso.

O NSDAP proibiu fumar em seus escritórios em 1939, e nesse mesmo ano o chefe das SS, Heinrich Himmler anunciou a proibição de fumar para todos os policiais uniformizados e oficiais das SS enquanto estivessem de serviço, o que não impediu que, durante a guerra, um dos presentes que entregava Himmler aos membros da Waffen SS que tinham destacado, fosse um “porta-cigarros de prata” com sua assinatura pessoal.

Também no ano 1939 a revista da Associação dos Médicos Americanos apresentou um decreto de Hermann Goering onde se proibia que os soldados fumassem na rua enquanto estivessem de serviço, em marchas e desfiles, e nos períodos de permissão. 60 das principais cidades alemãs proibiram fumar nos transportes públicos em 1941, e em 1944 a proibição se estendeu a todas as cidades alemãs, incluindo os trens, vindo esta iniciativa do próprio Hitler, que estava preocupado pela exposição ao fumo das jovens condutoras. Também se proibiu fumar nos refúgios antiaéreos, ainda que em alguns deles tinham zonas separadas para fumantes. Durante os anos da guerra os cupons de racionamento de fumo foram denegados às mulheres grávidas e para todas as que tivessem menos de 25 anos, e os restaurantes e os cafés tinham proibido a venda para seus clientes. Estas medidas tinham como fim preservar a saúde das mulheres. A partir de 1943 foi decretado a proibição de fumar em público para todos os menores de 18 anos. Todas estas políticas se emolduravam dentro de uma campanha que pretendia marcar "o princípio do fim" do consumo de tabaco na Alemanha.

A epidemiologia sobre o fumo Alemão naquela época era a mais avançada em sua época. Os doutores Franz H. Muller em 1939 e Eberhard Schairer e Erich Schoniger em 1943 foram os primeiros a utilizar grupos de estudo seguindo métodos epidemiológicos para documentar a relação entre o câncer de pulmão e os cigarros, como mencionamos acima. Muller concluiu que "o importante aumento no consumo de fumo é a principal e mais notória causa do incremento da incidência de câncer de pulmão". As doenças do coração também foram mencionadas como umas das doenças mais graves produzidas pelo consumo de fumo. Nos últimos anos da guerra, se suspeitava da nicotina como a causadora das falhas coronárias sofridas por um surpreendente número de soldados na frente do Leste. Em 1944, um relatório de um médico militar apresentou que 32 jovens soldados dos quais tinha examinado uma vez mortos na frente de batalha por ataques do coração tinham sido todos "fumantes entusiastas". Este médico citava em seu relatório o patologista de Friburgo, Franz Buchner, que considerava que os cigarros deviam ser considerados "um veneno coronário de primeira ordem”.

Em 20 de Junho de 1940, Adolf Hitler ordenou que as rações de fumo fossem distribuídas entre os soldados "de um modo que dissuadisse os soldados de fumar". As rações de cigarros estavam limitadas a 6 cigarros por pessoa ao dia. Com rações alternativas disponíveis para os não fumantes, como chocolate ou comida extra. Em ocasiões muito limitadas tinha cigarros extras disponíveis para fumar, mas estavam limitados a 50 ao mês por pessoa. As rações de fumo não podiam ser providas às mulheres da Wehrmacht. Uma ordem de 3 de novembro de 1941 aumentou as taxas sobre o fumo para um nível tão alto como nunca tinha estado, sendo entre 80% e 95% do preço de venda, com o fim de aumentar o preço e desincentivar o consumo. Depois da morte de Adolf Hitler, tiveram que passar mais de 25 anos para que as taxas sobre o fumo voltassem a incrementar.

Os efeitos destas e outras medidas, como as leituras por parte de médicos para desincentivar o consumo de fumo entre os soldados, conseguiram reduzir o consumo de fumo entre os militares durante os anos da II GM. Uma pesquisa efetuada em 1944 entre 1.000 membros do exército mostrou que enquanto a proporção de soldados fumantes tinha aumentado (só 12,7% eram não fumantes), o consumo de fumo tinha decrescido (em 14%). Mais militares eram fumantes (deles 10 tinham adquirido o hábito durante a guerra, enquanto só 7 tinham deixado), mas a média de consumo per capita de cada soldado tinha baixado quase 25% (23,4%) um consumo muito menor que o dos anos da préguerra entre o mesmo grupo. O número de fumantes ''intensivos'' (mais de 30 cigarros ao dia) tinha reduzido de 4,4% a 0,3%, e quedas similares foram registradas para os fumantes de ''intensidade média'‘.

A pobreza do pós-guerra provocou que o consumo não aumentasse. De acordo com as estatísticas oficiais alemãs, o consumo de fumo não voltou aos níveis da pré-guerra até meados dos anos 50. A queda foi muito significativa: o consumo alemão per capita diminuía a mais da metade entre 1940 e 1950, enquanto, por exemplo, o consumo nos EUA dobrou durante esse período. Na França também aumentou, ainda que durante os quatro anos da ocupação alemã o consumo de cigarros diminuiu ainda mais do que na Alemanha. Depois da guerra, a Alemanha perdeu sua posição como a nação com umas das campanhas e uma ciência anti-tabaco mais agressiva. Depois da morte de Hitler, muitos dos doutores que trabalharam na campanha anti-fumo ou bem perderam seu trabalho ou foram silenciados. Karl Astelm, diretor do Instituto de Jena de Investigação dos Riscos do Fumo, que era, além disso, o reitor da Universidade de Jena e oficial das SS suicidou-se em seu escritório na noite de 3 para 4 de Abril de 1945. O responsável dos Assuntos de Saúde do Reich, Leonardo Conti, outro ativista anti-tabaco, suicidou-se em 6 de outubro de 1945 numa prisão aliada onde estava à espera do julgamento por sua participação no programa de eutanásia. Hans Reiter, presidente do Escritório de Saúde do Reich, que numa ocasião definiu a nicotina como "o maior inimigo da saúde do povo" e "o estorvo número um da economia alemã" foi internado durante dois anos numa prisão americana, e posteriormente trabalhou como médico numa clínica de Kassel, não voltando jamais a exercer na saúde pública. O Gauleiter Fritz Sauckel, o cabeça do movimento anti-fumo de Turíngia e avalista em seus começos do Instituto de Investigação dos Riscos do Fumo, foi executado em 1 de Outubro de 1946. É surpreendente que todos os esforços para reduzir e eliminar o tabagismo na Alemanha fossem esquecidos depois da guerra.

Claramente havia alguns vínculos consideráveis entre promover alguns estilos de vida sãos e a idéia de defesa da raça. O fumo e o álcool eram considerados como "venenos genéticos" que levavam à degeneração do povo alemão, já que afetavam a fertilidade e podiam causar danos nos cromossomos. Talvez por este motivo, a opção por promover hábitos saudáveis durante o III Reich não foi dado a conhecer para o grande público, que como resultado de 70 anos de propaganda seguem pensando que todo "nazista" é mal e detestável por natureza.

Imagens da propaganda Alemã contra o tabagismo e sua industria:


  
  
  

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